O incidente do Passo Dyatlov

O incidente do Passo Dyatlov

O ano é dezembro de 1958, quando 9 estudantes universitários planejam uma viagem na neve cujo objetivo era o cume do monte Otórten de aproximadamente 1.200 metros de altura,localizado ao norte dos Montes Urais, na antiga União Soviética.Na língua indígena local, o mansi, ‘Otórten’ traduzido significa ‘Não vá lá'”.

 

Montes Urais,Rússia.

A caminhada seria realizada nas férias ,ápice do inverno siberiano,contudo todos eram esquiadores e turistas experientes.                                                                                                                                     Originalmente eram 14 pessoas que participariam do passeio de fato,mas apenas 10 seguiram pela liderança de Ígor Dyatlov. Também uniu-se ao grupo um instrutor de acampamento turístico, Semyon Zolotaryov, de 37 anos,sendo o mais velho do grupo.Nessas férias outros grupos saíram para caminhadas de níveis de menor dificuldade.Alguns partiram ao mesmo tempo que o grupo de Dyatlov,inclusive no mesmo trem.Vários grupos viajaram pelas rotas clássicas do Médio Ural.Toda a região estava coberta por rotas turísticas de esqui,onde participavam vários grupos de estudantes,que fariam três subidas invernais aos cumes dos montes Sáblya, Neroyka e Telposíz. Porém o grupo de Ígor Dyatlov pretendia subir pela montanha de Otortén  no topo da crista Poyasóviy no Ural do Norte.

Os participantes eram Ígor Dyátlov, o líder, Yuri Doroshenko, Lyudmila Dubínina, Aleksandr Kolevátov, Zinaída Kolmogórova, Gueorgui Krivoníschenko, Rustem Slobodín, Nikolay Thibeaux-Brignoles, Yuri Yúdin e Semyon Zolotaryov o mais velho do grupo.

                   Caminhão leva o grupo a uma viagem sem volta

Os viajantes  passaram duas noites em uma cidade chamada Ivdel e depois seguiram para o vilarejo  Vijay.Foram levados então por um caminhão até a Vila 41 Kvartal,onde moravam madeireiros.Foram recebidos calorosamente pelos habitantes locais e se hospedaram em uma pousada de Vijay .

Grupo posando para foto com madeireiros da região.

Amanhecendo o dia eles receberam seus equipamentos de esqui e começaram seguir viagem até alcançar uma  vila desabitada de Vtoróy  Séverniy. Resolveram parar e passar a noite em uma dessas casas abandonadas.

                     Pequeno povoado desérto chamado  de Vtoróy Séverniy 

No quinto dia de viagem acontece um imprevisto, alguém do grupo adoece.Yuri Yudin sentia muita dor lombar, fazendo o grupo caminhar mais lentamente atrasando todo o percurso.Decidiram então que o melhor para ele seria voltar para casa.Yuri concorda cedendo suas roupas e bagagens para que seus amigos dividam entre si, e em seguida se despede.

 

Yuri se despede de Zina, ao fundo Semyon Zolotaryov.

 Sem notícias de volta.

Como os filhos não retornavam, os pais de Dubínina e Slobodín foram os primeiros a registrar queixa de desaparecimento do grupo.Um fato negligenciado foi que o grupo Dyatlov não forneceu uma cópia da agenda da rota seguida pelos estudantes, sendo que o normal são três rotas, uma que fica com o grupo, outra para ser entregue ao clube e uma de reserva.Descobriu-se que Dyatlov não havia comunicado com ninguém sobre o percurso fazendo uma rota desconhecida.

A medida tomada pelos grupos de busca foi por tentativa e erro, interrogando pessoas que encontravam pelo caminho, o que causou muitas dificuldades nos trabalhos de resgate.

O  diretor da Faculdade e coronel  Gueorgui Ortyukov e o mestre de esporte e turismo Evueny Maslennikov, organizaram o resgate formando 6 grupos de buscas.Os líderes desses grupos eram turistas com experiência em várias caminhadas.Entre eles tinha um grupo militar com cães de busca e detectores de mina.Todos organizados e guarnecidos de alimentos .

As populações locais juntamente com famílias indígenas dos Mansi, se prontificaram para ajudar. Mais tarde geólogos com equipamentos de rádio também contribuíram.Todos da região foram orientados a comunicar o Estado caso encontrassem qualquer vestígio dos desaparecidos.

Em 21 de fevereiro iniciaram as buscas aéreas, que sobrevoaram a rota dos Dyatlovy sem sucesso,pois a área era enorme e as condições do tempo não ajudavam. Encontrar  pistas de esquis na neve  era quase impossível pela vastidão das florestas de coníferas. Mais tarde decidiram mudar o padrão de busca, dividindo os grupos em subgrupos e vários acampamentos. 

                   Um dos grupos de resgate a procura dos Dyatlovy.

Uma tenda é encontrada

Em 24 de fevereiro o grupo de resgate liderado por Boris Slobtsov  chegou de helicóptero ao cume do monte Otorten para verificação, porém nenhum vestígio dos Dyatlov  foi encontrado.               Concluíram então que eles não chegaram ao destino. Dia 26 de fevereiro caminharam ao vale do rio Lozva e com a ajuda de um binóculo avistaram algo sobre a neve.O acesso era difícil devido a costa íngreme e muita neve,tiveram então de deixar os esquis e caminhar pela neve sentindo os pés frios.Finalmente encontraram um artefato, a tenda onde os Dyatlov tinham ficado,localizada na Montanha dos Mortos. 
Ao  vasculharem o local encontraram um clima de terror, a tenda rasgada no meio, os objetos cobertos de neve, os esquis e na entrada da tenda e um machado de gelo, porém não havia ninguém.

No dia seguinte a tenda destruída foi encontrada.

Uma inspeção mais cuidadosa  confirmou que não havia cadáveres na tenda.Encontraram uma  jaqueta que continha documentos pertencentes a Igor Dyatlov. E mais,acharam dinheiro, bilhetes de retorno do trem e documentos de rota do grupo.Não encontraram pegadas ao redor da tenda,  indicando que o grupo tinha sofrido algum ataque aparente, trazendo esperança de achá-los ainda com vida.                                                                                                                                                                    O diário do grupo foi achado, e nele todos os integrantes tomavam nota sobre os eventos da caminhada.E no último registro feito por eles foi dia 31 de janeiro,quando fizeram um labáz, um tipo de armazém temporário para armazenamento de comida,localizado no vale de Lozva.E  ali deixaram parte das bagagens para poder subir ao monte Otortén sem muito peso.Depois pegariam as coisas novamente.Nesse dia todos estavam vivos e bem.Em torno da tenda não havia pegadas na neve, mas encontraram rastros cerca de 20 metros de distância que seguia para a floresta.

Uma nevasca impediu mais inspeções,fazendo Slobtsov e Sharavin voltar antes de anoitecer e contar aos demais companheiros sobre o ocorrido.Levaram a caixa com os documentos,o diário e um frasco de álcool,que era utilizado contra congelamento, e ainda três câmeras fotográficas.

Felizes com os achados e principalmente pelo fato de não haver cadáveres, comunicaram ao Estado via rádio.E para brindar tomaram meio copo do álcool diluído em água,aquele mesmo encontrado na tenda, acreditando que o grupo poderia ser encontrado com vida, talvez apenas feridos e doentes em algum lugar seguro a espera de resgate.Não considerando outra hipótese,apesar da situação claramente mostrar uma situação trágica,uma vez que estavam sem seus documentos e sem dinheiro.

Duas tendas do exército foram instaladas no local do achado,sob supervisão do coronel Ortyokov  e seus homens. Inspecionaram cuidadosamente tudo na tenda e envolta dela,deixando claro que o grupo Dyatlov deixou a tenda em pânico,pois foram encontrados gorros congelados na neve e  chinelos de diferentes pares.Mais abaixo da tenda ,viram pegadas ,algumas delas eram de pés  descalços ou de meia, que estavam dispostas em fileira ,talvez para não se perderem uma das outras,mais abaixo da tenda as pegadas desapareciam sob a neve. Havia mais perguntas que respostas.Por que e quem teriam cortado a tenda?Por que sairiam despidos numa temperatura congelante abaixo dos 20 graus negativos?

 

 

                   Tenda dos Dyatlov em verificação pelo resgate onde acharam mochilas e esquis do grupo.

Seguindo os diários.

Foram encontrados mais diários do grupo,e todos foram lidos cuidadosamente na  busca por soluções.Posteriormente os conteúdos dos diários foram liberados e postados na internet.

Veja algumas fotos do grupo durante seus trajetos pela neve.    

 

                   Um breve descanso do grupo no vale de Lozva.

                   O grupo mostra humor apesar do cansaço.

                     Margens rochosa do rio Lozva.

                                         Pausa para um lanchinho.

Última jornada.

             Instalação da tenda ,ultimas fotos da jornada.

Provavelmente Dyátlov  decidiu fazer uma pausa devido a nevasca.Ao invés de caminhar o dia todo  decidiram preparar um  almoço quente, pois tinham um pouco de lenha para acender uma fogueira.Entretanto o fogão foi encontrado desmontado.A julgar pelas últimas fotos, o comportamento do grupo não tinha nada de anormal.Não se preocuparam com o tempo e não montaram patrulhas.Durante o dia usavam trajes leves ,mas antes de dormir trocavam de roupa, colocando a mais quente possível.Para aquecer os pés tinham botas altas de feltro..

Foram encontrados ainda restos de comida,bacon,cacau e restos de mingau de aveia, indicando que o grupo de Dyatlov se preparava para o jantar,minutos antes do trágico ocorrido.

No momento do desespero o pavor tomou conta deles e fugiram descalços para fora da tenda. Mas o que de tão terrível poderia ser? Poderia ser um grupo armado de pessoas!Entretanto não foram identificadas qualquer evidência de presença de estranhos no local.

Estranhos achados

Em 27 de fevereiro, parte do grupo de resgate de Slobtsov, partiram abaixo da borda da Montanha  da Morte seguindo pegadas  que logo desapareceram.E pela intuição seguiram a uma direção que os levaram a um cedro.Depois de subirem uma pequena distância tiveram um choque! Bem em sua frente estavam dois corpos polvilhados de neve, perto do rastro de uma fogueira!

 

 

Ao removeram a neve identificaram os primeiros corpos, Yuri Doroshenko e Gueorgui Krivoníschenko.Porém o corpo de Gueorgui não foi reconhecido imediatamente de tão assustadora que foi a mudança causada na aparência do jovem. 

                   Estranha cor notada nas mãos dos cadáveres, o mistério das mortes se iniciava.

 

Os corpos estavam vestidos apenas com  roupas leves e camisas xadrez.Suas mãos pareciam queimadas e também não foram encontrados na posição de morte por congelamento.Quem morre congelado tenta se preservar ao máximo do frio, puxam os joelhos contra o peito, ficando parecido com a posição fetal.Um deles foi achado deitado de costas e o outro com os braços abertos.

Foram encontrados junto ao cedro sob a neve uma camisa,um lenço,algumas meias e um pedaço de casaco.Mais a frente encontraram algumas notas de dinheiro. A fogueira parecia queimada pela metade.

Mais a frente do cedro ,tinha vestígios de alguém que havia cortado ramos com uma faca.Os pesquisadores concluíram que esses ramos não foram utilizados para queimar, pois tinha mais lenha seca ao redor.Imaginaram então que esse trabalho foi feito por pessoas que estavam enfraquecidas ou com a mente turva.

Mais tarde, percorrendo uns 300 metros no caminho do cedro o terceiro corpo foi encontrado debaixo de uma planta parcialmente coberto pela neve. Era o corpo de Ígor Dyatlov! Estava descalço com a cabeça descoberta, vestido de um colete desabotoado.Suas mãos levantadas pareciam estar tentando abrir as suas roupas como se estivesse sem respiração.Seu relógio estava quebrado e no seu pé direito tinham duas meias. 

                      Corpo de Igor Dyatlov,repare suas mãos sobre o peito.

A  procura por mais corpos continuou ,quando de repente um cão farejador encontra o quarto corpo debaixo de uma camada espessa de neve.Era Zina! Ela estava à 300 metros dos primeiros corpos encontrados.Seu corpo estava rígido no que parecia se arrastar para a tenda, estava com todas as suas roupas, porém seu suéter tinha o punho da manga direita arrancada.No chão havia manchas de sangue próximo ao seu rosto devido a um sangramento nasal.

Pela inspeção do grupo de resgate a tenda fora instalada corretamente.Entre os objetos encontrados estavam postos 2 cobertores, mochilas, jaquetas impermeáveis e calças.Dessa forma os objetos testemunhavam que a tenda foi deixada de forma repentina.Contudo não foram encontrados sinais de luta nem na tenda nem fora dela nem presença de outras pessoas.

O promotor de Ivdel, em 28 de fevereiro iniciou uma investigação pela morte do grupo de Dyatlov. O desaparecimento dos turistas esquiadores gerou interesse em Moscou, quando o líder soviético Nikita Khuruschev, pediu para encontrá-los a qualquer custo. No dia 2 de março, foi encontrado o labáz de Dyátlov, localizado próximo do campo da equipe de resgate. Nele tinham aproximadamente 55 kg de alimentos, algumas botas e um par de esqui. Além do machado de gelo uma lanterna chinesa que foi achada fora da tenda, confirmando a probabilidade de uma única pessoa vestida ter saído e deixado a tenda apressadamente. Entre as possíveis causas da saída poderia ser algum fenômeno natural ou extraordinário ou ainda o voo de um foguete meteorológico avistado em 1 e 17 de fevereiro.

A busca continua.

 Por dois meses as buscas  pelos 4 últimos integrantes do grupo continuaram.A neve dificultava muito pois estava dos joelhos até a cintura. Os socorristas já estavam cansados do trabalho monótono e pelo fato de ter de  viver em uma tenda na floresta em pleno inverno.Para resultados mais eficazes seria necessário aguardar o descongelamento da neve.
Na fria madrugada de 31 de março em meio a neve e árvores, os buscadores presenciaram uma grande esfera voadora de fogo! Tal objeto misterioso se movia lentamente.Nisso algo semelhante a uma estrela começou a cair se separando da esfera.Esse evento alucinante durou cerca de 20 minutos! Seria um disco voador? 

No final de abril, a neve gradualmente desaparecia favorecendo as buscas. Perto do cedro apareceram coisas curiosas! Tocos cortados de píceas e abetos novos, cujos raminhos estendiam-se em fileira desde o cedro até o barranco, e no parecer dos socorristas, indicava algum tipo de trilha.Em 5 de maio, um cão  dos mansi, encontrou  a metade de uma calça preta esportiva de algodão, enterrada a uns 10 centímetros sob a neve, e também a metade esquerda de um suéter feminino de lã marrom clara.Uma triste surpresa, as roupas eram de Lyudmila Dubínina! Mais a frente no fundo de um  riacho foi encontrado o cadáver de Lyudimila.O ambiente era assustador.

 

 

                                                  Cadáver de Lyudimila encontrado num riacho.

 

 

A operação seguia com a  escavação de um fosso, juntamente com as buscas pelo riacho.Enfim foram encontrados mais 2 corpos.Eram os cadáveres de Kolevátov, Zolotaryov e Thibeaux-Brignoles.A cena presenciada era simplesmente terrível. Todos os quatro corpos estavam perto um do outro debaixo de uma camada de quatro metros de neve no fundo do barranco, através do qual corria um riacho incongelável.

                    Dois corpos encontrados no riacho.

                     Os últimos dois corpos encontrados sem os olhos.

Aquele era o quadro da tragédia, os últimos quatro estiveram preparando um lugar no barranco  para se esconder daquele misterioso perigo que os ameaçava. Eles sabiam da morte dos demais companheiros pois o abrigo que estavam preparando era apenas para 4 pessoas.

No desenrolar da história já havia rumores da morte do grupo ,contendo uma versão de contaminação radioativa.Sabendo disso os pilotos se recusaram de levar os corpos sem nenhuma proteção.Por fim os corpos foram levados em caixões de zinco enviados pelo exército.

Mistério sem fim. 

Quando os primeiros corpos haviam sido resgatados,foram encaminhados para serem enterrados  no cemitério  Mikhâylovskoye na cidade de Sverdlovsk. Quase dois meses depois os demais corpos se juntaram a eles, com exceção de Zolotaryov e Krivoníschenko que foram enterrados no cemitério Ivânovskoye.  

A ausência de provas materiais e testemunhas, deixaram as investigações complicadas.As autoridades decidiram pelo arquivamento do caso,concluindo que as mortes foram causados por uma força desconhecida.
Após 25 anos o inquérito do grupo Dyatlov foi considerado de interesse público.E na  intenção de  revelar esse grande mistério,foram publicas cópias do processo e fotos na Internet.

 

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